A fundação da APECIH

Minha história na APECIH - Dr. Antônio Tadeu Fernandes

15 de Maio de 1987


A história da APECIH começa no final dos anos setenta, embora ela tenha sido oficialmente fundada apenas na década seguinte. Era um mundo sem celular ou internet e no Brasil praticamente nada se falava sobre infecções hospitalares na graduação de profissionais de saúde. Sem uma legislação específica, não chegava a vinte os hospitais que tinham CCIH atuantes, criadas por iniciativas isoladas, não tinham um padrão de atividades, seguindo tendências de seus fundadores, que podiam ser sanitaristas, microbiologistas, farmacêuticos, cirurgiões, infectologistas e enfermeiros. Todos ficavam angustiados ao ver quanto tinha que ser feito, mas praticamente não havia troca de experiência entre estas comissões e quem se aventurasse a montar uma CCIH, tinha que se virar sozinho na busca das informações básicas e qualquer atitude mais crítica, sempre era mal vista, pois vivíamos sob uma ditadura e podia ser considerada subversão. Em termos de legislação sobre controle de infecção, só havia uma portaria do INSS para regularizar o uso de germicidas, com validade apenas nos seus hospitais.

Nessa época, organizei um grupo multiprofissional no hospital que atuava, para discutirmos como monitorar infecções hospitalares e isolar as obras de construção do hospital, do espaço, em seus andares inferiores, onde atendíamos os pacientes, realizando até cirurgias. O sucesso destas ações teve boa repercussão e fomos convidados a participar de poucas palestras, pois o tema ainda não estava na mídia, mas nelas fomos identificando profissionais de outras instituições com interesse no tema e vimos que tínhamos muito a compartilhar. Assim nos juntamos com a Meire e o Paulo do Hospital do Jabaquara e com José Carlos, Marilda e eu, pelo SEPACO nos propusemos a realizar reuniões periódicas para trocar experiências profissionais, fundando em 1982 o Núcleo Paulista de Estudos em Controle de Infecção. Praticamente todos os hospitais paulistas que tinham CCIH aderiram ao Núcleo, que em suas reuniões periódicas também começou a ler os poucos livros e artigos onde avidamente buscávamos informações, surgindo um embrião de uniformidade de condutas. Isto gerou uma solidariedade entre seus membros e as angústias pelo saber puderam ser compartilhadas.

Dois acontecimentos contribuíram para a consolidação e expansão do Núcleo: a pandemia de AIDS, que trazia aos profissionais de saúde a necessidade de saber como prevenir contágio em suas atividades e a política da OPAS para implantar CCIH nos hospitais da América Latina. Por conta disso, esta entidade realizou um treinamento em Brasília, que foi reproduzido no Núcleo, sob a coordenação dos colegas que participaram do treinamento. Foi elaborada a Portaria MS 196/83, que recomendava aos hospitais terem CCIH, organizava a utilização de germicidas e implantava a notificação controlada das IHs, um sistema de busca passiva. Além disso, foi elaborado o Curso de Introdução ao controle de infecção (modelo ainda hoje desenvolvido pela APECIH), pois foi identificada formação deficiente dos profissionais de saúde no controle de infecção e definiu-se essa prioridade, mas o projeto foi engavetado.

O fator decisivo para disseminação do controle de infecção no Brasil foi a morte do Presidente Tancredo Neves por infecção hospitalar, em 1985. Respondendo ao clamor público, foi ativado o Programa de Controle de Infecção no Ministério da Saúde, que credenciou os Centros de Treinamento para difusão do curso de introdução, incluindo o núcleo paulista. O modelo de reunião do núcleo foi expandido por todos os centros de treinamento em nosso Estado e com a participação do Centro de Vigilância Epidemiológica, as reuniões foram oficializadas dentro de um planejamento integrado dos treinamentos, trazendo sempre temas científicos para serem debatidos nos encontros. O convite ao Dr. Romero, então coordenador do programa ministerial, trouxe duas grandes inovações a nível federal: essa estrutura de reunião foi copiada para os encontros nacional dos centros de treinamento, promovidos pelo Ministério da Saúde e ele tomou conhecimento da supremacia da busca ativa de casos, já implantada em vários hospitais, resultando nas mudanças propostas pela Portaria MS 930/92, que trazia a necessidade do SCIH e da busca ativa de casos. Essas reuniões, tanto a nível estadual como a federal, ajudaram a desenvolver o modelo brasileiro de controle de infecção e treinar mais de 15 mil profissionais de saúde, mudando irreversivelmente o controle de infecção no Brasil. Nessas mudanças o papel do núcleo paulista, embrião da APECIH, foi crucial, como um dos mais ativos centros de treinamento.

Com o crescimento das atividades, representantes dos centros de treinamento no Estado de São Paulo resolveram fundar a APECIH em 15 de maio de 1987, que foi a primeira associação sobre controle de infecção do Brasil e eu fui seu presidente de sua fundação até 1991, sendo sua primeira sede na sala da CCIH que eu atuava, com regionais em todos os demais centros de treinamento do Estado (Ribeirão Preto, Rio Preto, Marília e Campinas). A APECIH logo começou a publicar seu jornal e eventos foram organizados tanto pela sede central como nas regionais, com participação crescente de profissionais de saúde. Por exemplo, um evento sobre microbiologia e controle de infecção, organizado pela regional de Ribeirão Preto teve mais de 500 participantes. Em agosto de 1989 a APECIH organizou o Primeiro Congresso Brasileiro sobre Controle de Infecção com a participação de mais de 1.300 colegas, onde debatemos a implantação de outras entidades estaduais. Nesta época não fazíamos parte da ABIH, fundada também em 1987 num evento em Porto Alegre, sem a participação dos centros de treinamento. Em 1990 no segundo congresso, realizado em Belo Horizonte pela AMECIH, com a participação da APECIH e ABIH, foi desenvolvido o modelo atual dos congressos sobre controle de infecção, que se repetem a cada dois anos.

Talvez o maior baque para o controle de infecção e talvez para a saúde coletiva no Brasil foi a extinção dos Centros de Treinamentos durante o governo Collor. Com isso se perdeu uma massa crítica embasada cientificamente, idealista e entusiasmada, que se reunia graciosamente ao custo apenas de viagem e estadia, que dava suporte técnico científico para as diretrizes ministeriais, além da difusão de conhecimento. Reflexo da perda da força política, embora tenha sido aprovada uma Lei Federal em 1997 obrigando os hospitais a terem um programa de controle de infecção, praticamente todos os demais artigos foram vetados pelo presidente da república. Num último suspiro ministerial na área, foi editada no ano seguinte a portaria MS 2616/98 para regulamentar suas atividades, mantendo um grupo executivo no lugar do extinto serviço de controle de infecção, vetado na Lei. Apesar disso, o controle de infecção ficou praticamente esquecido por um tempo até passar no início deste século a ser uma atribuição a nível federal da ANVISA, que no início valorizou o controle de infecção, mas atualmente prioriza programas de segurança do paciente, onde falta uma participação mais ativa de toda experiência acumulada pelos controladores de infecção na garantia da qualidade assistencial e no envolvimento da comunidade hospitalar em suas atividades.

Neste contexto desfavorável, as associações estaduais e federal, dentre as quais a APECIH se destaca, e os congressos realizados, mantiveram acesa a necessidade de um controle de infecção eficiente, estimulando uma produção científica de alto nível em nossas instituições de saúde e até levando o tema para as faculdades, que muitas ainda relutam em ter uma disciplina independente sobre controle de infecção na graduação dos profissionais de saúde, que tem seu ensino focado apenas na pós graduação ou eventuais estágios ou disciplinas facultativas durante a graduação. Se fossemos realizar um balanço da importância da APECIH, poderíamos citar o número crescente de profissionais que se interessam pelo tema, fazendo dele o sustento de suas famílias e, principalmente, as muitas vidas que foram salvas por programas eficientes de controle de infecção nos serviços de saúde. Sinto-me plenamente gratificado por ter junto com meus colegas, participado deste projeto que criou uma especialidade multidisciplinar, fundamental para a saúde da coletividade.